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Transplante de medula óssea: haploidêntico ou cordão

O Congresso da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea recebeu dois convidados internacionais na manhã da sexta-feira, dia 2 de agosto, para debater o uso de sangue de cordão umbilical e o transplante haploidêntico. Stefan Ciurea, do Departamento de Transplante de Células-tronco e Terapia Celular do MD Anderson, e Juliet Barker, Diretora do Programa de Transplante de Sangue de Cordão do Sloan Kettering Cancer Center, falaram sobre os prós e contras do uso das duas fontes para os transplantes e como os especialistas poderiam vislumbrar um futuro para a área.

Ambos os palestrantes falaram que a realidade, hoje, é que para todo paciente há uma chance, seja ela um doador familiar, voluntário ou as células do sangue do cordão umbilical. Mas o que os trabalhos de Ciurea e Barker demonstram é que não há uma resposta imediata para a pergunta: qual a melhor fonte para o procedimento? O doador totalmente compatível permanece sendo o primeiro da lista, mas mesmo em casos de compatibilidade fatores como tempo e disponibilidade podem alterar esta equação.

Os transplantes haploidênticos se mostram como uma solução viável e com bons resultados para determinados casos, como o levantamento de Ciurea mostram. Porém, os dados também mostram necessidade de cautela, uma vez que não são tão consistentes em todos os tipos de doenças e mesmo em todos os centros de transplante. “Podemos dizer que o transplante haploidêntico traz menos limitações para o paciente, menos chances de complicações, mas ainda é preciso de mais tempo de acompanhamento dos pacientes para ter resultados consistentes”, explicou Ciurea.

Já o trabalho de Juliet Barker apresentou seu trabalho realizado na Europa, local onde haveria mais miscigenação e, por isso, a médica decidiu focar seus estudos. Para Barker, a vantagem principal do uso do cordão é a disponibilidade, que traz mais rapidez para o procedimento. Mas ela questionou a necessidade de haver um “ranking” das fontes para transplante: “O foco não deveria ser qual dos dois é melhor, mas fazer o melhor transplante, ou seja, quem vai fazer haplo, que seja feito da melhor maneira, quem vai usar cordão, que seja da melhor maneira”.

Ao final das apresentações, o Presidente do Congresso e moderador do debate, Luís Fernando Bouzas, fez uma provocação e perguntou aos palestrantes sobre o fato de que alguns especialistas brasileiros questionam a manutenção dos bancos de sangue de cordão públicos da Rede BrasilCord. Stefan Ciurea acredita que há espaço para todas as fontes, especialmente em uma população tão diversa quanto a do Brasil. “Nem todo mundo vai ter um doador haploidêntico, mas a questão principal, nesse caso, é a relação custo-benefício”, disse. Baker defendeu o uso do cordão e os bancos públicos: “Acho que o cordão funciona melhor para um determinado grupo de pacientes e aqui já existe a infraestrutura”, ressaltou.juliet

Isenção da taxa de inscrição em concurso público – Nota de esclarecimento

O Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (REDOME) reúne informações cadastrais dos possíveis doadores voluntários de medula óssea do Brasil. Atualmente, é o terceiro maior registro de doadores do mundo com mais de 4 milhões de  pessoas.

O cadastro no REDOME é, por definição, um ato voluntário. Conforme recomendações nacionais e internacionais de diversas organizações relacionadas à atividade, este não pode estar vinculado a nenhum tipo de vantagem ou recompensa.

Ao realizar o cadastro, o doador voluntário permanecerá no Registro até completar 60 anos de idade. Em caso de compatibilidade com um paciente, será contatado para avaliar sua disponibilidade em prosseguir com este processo.

Deste modo, o sucesso do REDOME em identificar doadores para os pacientes que necessitam de um transplante de células-tronco hematopoéticas, depende, além de aspectos técnicos de compatibilidade genética, do nível de comprometimento destes doadores. Uma vez cadastrados, estes deverão manter seus dados pessoais atualizados, conforme diversas ações institucionais veiculadas nos últimos anos.

Por este motivo, o REDOME não concorda com a isenção da taxa de inscrição em concurso público como um incentivo ao cadastro da doação de medula óssea. A inclusão de novos doadores representa um aspecto estratégico, no que se refere à manutenção e expansão do registro brasileiro, e deverá seguir preceitos técnicos a fim de garantir o sucesso de uma atividade que é parte fundamental da política pública de transplantes de órgãos e tecidos.

O REDOME agradece o interesse e o empenho em ajudar os pacientes que necessitam de um transplante de células-tronco hematopoéticas, e se coloca à disposição para outros esclarecimentos necessários.

Fiocruz desenvolve molécula para tratamento de leucemia

Os resultados de uma pesquisa desenvolvida pelo Instituto Calos Chagas (ICC/ Fiocruz Paraná) abrem novas perspectivas para o tratamento de câncer, em especial da Leucemia Linfóide Aguda (LLA). Tratada desde 1970 com terapia que inclui a enzima asparaginase extraída de bactérias, a doença atinge com mais frequência crianças e jovens. No Brasil, cerca de 4 mil pacientes dependem deste tipo de medicamento, importado e utilizado pelos serviços de oncologia do Sistema Único de Saúde (SUS). O estudo desenvolveu uma versão inovadora da asparaginase humana, que passou a ter maior atividade bioquímica após mudanças em sua estrutura, o que confere a ela um potencial terapêutico. A descoberta feita pelos inventores Stephanie Bath de Morais, Nilson Zanchin e Tatiana Brasil, com pedido de patente já depositada, abre perspectivas para o tratamento com uma enzima mais especifica e menos tóxica, uma contribuição importante para o tratamento da leucemia infantil.

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“A enzima obtida a partir de bactérias, embora efetiva no tratamento, provoca uma reação forte do sistema imunológico, causando diversos efeitos colaterais no paciente. A vantagem de se utilizar no tratamento uma proteína de origem humana seria a diminuição dos efeitos colaterais decorrentes do reconhecimento de uma molécula estranha. As células humanas produzem a asparaginase, porém a proteína nativa não apresenta atividade suficiente para utilização como medicamento. Utilizando a expertise do nosso grupo, nosso objetivo foi o de investigar a estrutura dessa molécula. Então, foram realizadas mudanças na sua estrutura que resultaram em atividade compatível com potencial uso terapêutico”, explica a pesquisadora do Laboratório de Proteômica e Engenharia de Proteínas, Tatiana Brasil. “Em quatro anos de pesquisa, identificamos as mudanças necessárias na estrutura da asparaginase humana e produzimos uma molécula inovadora no laboratório”, comemora.

Além da diminuição dos efeitos colaterais causados pelo medicamento disponível hoje no mercado, a descoberta pode abrir a possibilidade de produção nacional de um biofármaco com utilização essencial no tratamento da leucemia. “Hoje, o Brasil importa a asparaginase bacteriana que é utilizada nos serviços de oncologia cadastrados pelo SUS. Com a produção nacional dessa molécula humana inovadora, teríamos a possibilidade de melhorar o tratamento, baratear o custo e reduzir a dependência das importações”, ressalta Tatiana.

Os resultados também reforçam a característica de inovação das pesquisas desenvolvidas nos laboratórios da Fiocruz Paraná. O grupo foi orientado, durante todo o processo de proteção patentária, pelo Núcleo de Inovação Tecnológica da Fiocruz Paraná. “Passamos por duas avaliações e nossa descoberta está com o pedido de patente depositada. Não encontramos dificuldade no processo de proteção, pois os profissionais da Fiocruz nesta área estiveram presentes desde o início do projeto”, lembra a pesquisadora. “Nosso próximo passo é otimizar o processo de produção, e produzirmos a molécula humana modificada em quantidade suficiente para que possamos realizar os testes pré-clínicos a fim confirmar o potencial farmacológico dessa enzima”, finaliza Tatiana.

Fonte: https://agencia.fiocruz.br/fiocruz-desenvolve-molecula-para-tratamento-de-leucemia